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A PROLIFERAÇÃO DO CANCELAMENTO


Os sci-fis já tentaram retratar mil versões de futuro, dos mais catastróficos aos esperançosos, cheios de inovações capazes de solucionar as maiores crises de hoje em questão de segundos. O que nenhuma produção de ficção científica conseguiu antecipar foi a rotina que adotamos hoje: uma agenda lotada de caça às bruxas, linchamentos e fogueiras virtuais.


Nos filmes com pandemias em plano de fundo, a vida levada antes da crise dá lugar a uma luta feroz motivada por um objetivo maior: a sobrevivência. Contudo, o que as últimas semanas têm mostrado é uma sociedade mais preocupada com a recuperação econômica e formas rápidas de voltar aos frapuccinos na Faria Lima.


Diferente das versões roteirizadas, nos deparamos com um futuro inerte, preso às limitações de uma crise mal gerida. Temos levado os dias com uma normalidade ensaiada: o trabalho continua, assim como a cobranças por resultados, produtividade. Buscamos hoje adaptações de amanhã desenhadas sob um ontem que não nos cabe mais.


As universidades fazem vista grossa às precariedades que isolam ainda mais aqueles sem acesso à internet e aparatos de apoio. Até mesmo a adesão ao isolamento, em si, é um termômetro da desigualdade que ergue muros entre as zonas de São Paulo, tal qual no restante do país; enquanto Pugliesi festeja com seus colegas, as periferias enfrentam as consequências de tal irresponsabilidade.


A perspectiva que a tecnologia adquiriu no nosso cotidiano, durante o período de quarentena, nunca foi vista antes nas mais distintas sociedades globais durante nossa trajetória na Terra. Essa realidade transbordou o ser humano de informações; em um cenário virtual com tendências nocivas, cada comentário, post, curtida, entre os diferentes tipos de interação, pressionam e sufocam os usuários diariamente perante seus posicionamentos.


Nessa vida de mainstream e bastidores, projetamos as personas de sucesso que buscamos encontrar no outro. Espelhamos uma vida meramente imagética, encenando imagens como propunha Debord com sua sociedade do espetáculo. A principal diferença é que os palcos não são mais de taco, com cortinas de cetim e holofotes, dando lugar à frieza das telas e corpos de silício.


Diante desse contexto, presenciamos o surgimento do FOMO (fear of missing out), o medo constante e inconsciente de perder conteúdo quando nos distanciamos das mídias sociais, tornando os usuários eternos dependentes dessas redes. Pensando nos efeitos providos pelo uso de entorpecentes, percebemos a semelhança aos efeitos das redes sociais.


“Ficar sem poder utilizar (…) pode fazer com que certas pessoas se sintam ansiosas ou em pânico, com abstinência e sensação de vazio. Indivíduos dizem sentir uma vontade cada vez maior (e às vezes inconsciente) de usar (…) novamente, não importa onde”; a descrição, relato de um dependente químico a um repórter da Abril, ilustra muito bem a angústia que sentimos quando imersos na teia de plataformas virtuais. Não importa o contexto, nos tornamos dependentes das doses homeopáticas de dopamina que o bombardeio de views, curtidas e comentários transbordam sobre nós.


“Uma tela e só.”

A forma como desenvolvemos os laços e relações que caractererizavam nossa convivência foi ressignificada sob um código de distanciamento, uma tentativa de suprir o vazio que ficou para trás. Os abraços e beijos afetuosos não são transmitidos entre telas. E isso não é novidade: há um ano, a autora Rosana Hermann falava no segundo episódio do Bom dia, Obvious — podcast da Agência Obvious comandado por Marcela Ceribelli — sobre os efeitos do uso de redes sociais e plataformas virtuais na mediação das nossas relações.


Rosana aponta que nosso processo evolutivo não teve tempo para apreender essas interações remotas como equivalentes às demonstrações de afeto presencial. Seja uma tarde de home office, um fim de semana maratonando Netflix ou uma chamada de vídeo de horas falando com um ente querido, lemos as telas como a luz azul que projetam. Uma tela e só.


O sentimento de solidão cresce à medida que passamos mais tempo online. Dentre outras dores, essa angústia acaba nos levando a uma espiral de auto sabotagem: a impressão de poder que o anonimato da persona virtual proporciona é sólida o suficiente para construir correntes de linchamento.


Plataformas como o Twitter e o Facebook tornaram-se praça pública, lotada de olhares cheios de dedos, condenando posicionamentos como quem escolhe batatas no supermercado — sem um critério aparente, baseado em curvas sutis e manchas que quase nunca significam algo de fato.


Dizer isso não significa, porém, que devamos fazer vista grossa a questões problemáticas como a que deu origem à ideia do cancelamento. A primeira vez que a internet “cancelou alguém” foi durante o #MeToo, movimento de 2017 no qual mulheres de Hollywood manifestaram-se acerca dos assediadores da indústria para que todos soubessem de seus crimes cometidos. Os assediadores foram então “cancelados” pelo público, mídia e parte da indústria, dando luz ao termo que hoje ganhou diferentes significações.

Desde que surgiu, o termo serviu para assuntos sérios como assédio, mas, com o tempo, passou a tratar também de posicionamentos e opiniões corriqueiras dos famosos.


Entre posicionamentos políticos, círculos de amizade, ações em reality shows, dentre outros assuntos, pessoas públicas estão sofrendo com o júri da internet para definir sua sentença de “cancelados”. A doutora em psicologia Fabiana Schütz afirma que é difícil percebermos como a figura pública também é gente como a gente e empatizar com sua situação.


Depois de anos dessa cultura sendo posta em prática, é possível perceber que por mais que seja barulhenta, não é tão eficaz, já que grandes nomes cancelados alguma vez continuaram com sua vida normalmente. Muitas vezes, o cancelamento é para alguém que cometeu crimes de ódio ou ações imorais, porém, há casos em que uma figura pública entra em desacordo com a opinião de seus seguidores e ganha um linchamento com a mesma proporção.


“Nunca resolveu nada, só afastou os equivocados da pauta em questão.”

A artista Glória Groove já publicou no Twitter sua opinião sobre a questão do cancelamento: “nunca resolveu nada, só afastou os equivocados da pauta em questão”. A cantora lembra que esse ato de julgamento, muitas vezes, toma do transgressor a oportunidade de aprendizado, reforçando a ideia de que, humanos como somos, não estamos imunes ao erro.


Apesar da perspectiva negativa que a opinião massiva online pode gerar, a internet ainda é capaz de acender lâmpadas sobre nossa cabeça. Num contexto sensível como o que vivenciamos em isolamento, essa rede virtual potencializa uma variedade de experiências. Graças à aproximação que as ligações e videochamadas proporcionam, é possível conversar com alguém em qualquer lugar do mundo para matar as saudades — ainda que um borrão de luz azul, o contato traz alento ao coração.


Nessa quarentena nos deparamos com novas possibilidades de informação e entretenimento. Empresas, celebridades, artistas e escolas estão disponibilizando conteúdo de consumo online, conteúdo esse que varia entre conferências, shows ao vivo, aulas e palestras online de todas as áreas, treinos físicos, títulos em aplicativos de streaming e muito mais.


Nesse ecossistema de dados, a Matraca se insere dentre as iniciativas que somam no combate à propagação de fake news e desinformação que dominaram nossa rotina. Através de pautas de consciência e responsabilidade social, nossas conversas instigam o diálogo, batendo de frente com os discursos de ódio disfarçados de “mera opinião”.


Ao gerar plataformas falantes, a comunicação num geral assume papel informativo, adaptando-se às diversas situações e demandas que permeiam a vida em sociedade.


A edição deste ano, por exemplo, resolveu explorar as oportunidades de expansão na própria feira, agora redesenhada em uma experiência totalmente online. Deste modo, conseguiremos impactar estudantes por todo o Brasil e não só mais em São Paulo.


A feira se reinventa diante dos Tempos Modernos. No lugar das tradicionais engrenagens (estandes e formatos presenciais de interação) entram em cena os pontos de contato remoto, pensados cuidadosamente para aproximar e gerar diálogo, no contexto que for. Ser Matraca é falar com uma diversidade de sotaques; é pensar nas individualidades que tornam cada fala especial à sua maneira.


Num mundo isolado, nada mais justo que trazer a feira ao centro das atenções, tornando possível a participação e aprendizados ecoados pela Matraca numa perspectiva consciente que garante, ainda, a segurança de todos os envolvidos.

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