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O COMUNICAR EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS


Quem por acaso fez ou estudou algo de comunicação organizacional deve ter esbarrado com o livro de capa verde da Kunsch. As correntes icônicas logo de cara tentam traduzir a solidez dos relacionamentos, coisa linda de ver… Mas, de fato, vivemos enganchando correntes uns aos outros? Ou nossas relações estariam mais para laços de fita facilmente desatados?


Na verdade, os passos e passos descritos para um planejamento estratégico(jargão favorito de tantos comunicadores) no livro não se aplicam a alguns momentos da nossa vida. A impressão que fica é de termos pulado as aulas de caligrafia que nos ensinariam a escrever futuro. A conformidade, cruel assim, veio na carona do coronavírus.


Forte candidato a assunto do ano, o vírus surgiu na cidade de Wuhan, na China. Inicialmente chamado de 2019-n-CoV, recebeu o nome oficial de COVID-19, infecção causada por um dos tipos de coronavírus. De acordo com o infectologista Estevão Portela, vice-diretor de Serviços Clínicos do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), os coronavírus são uma causa conhecida de doença respiratória que até as últimas décadas não era mortal. O infectologista diz que o que vem acontecendo é um “salto de espécie”, “o vírus salta de uma espécie animal em que é parasita para uma espécie humana”.


O primeiro alerta do governo chinês sobre o novo coronavírus foi dado em 31 de dezembro de 2019. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recebeu o comunicado de vários casos de uma pneumonia em Wuhan, cidade chinesa com 11 milhões de habitantes. A primeira morte por coronavírus foi registrada em 11 de janeiro de 2020 e o primeiro caso fora do país foi registrado no dia 13 de janeiro, na Tailândia.


A OMS anunciou um surto da doença causada pelo COVID-19 em 30 de janeiro de 2020 e, em 11 de março deste ano, oficializou a pandemia. Do primeiro sinal até agora, foram confirmados no mundo 1.978.769 casos da doença.


O pandemônio à domicílio que experimentamos hoje é uma lâmina afiada contra. os elos da corrente de antes. Do dia para a noite, nossa rotina deu um giro de cento e oitenta graus em direção ao incerto e, mais do que nunca, percebemos o quanto temos dificuldade ao confrontar mudanças súbitas.


Traçamos planos de vida e carreira ideais, sem considerar as crises em potencial, sem imaginar um mundo onde o vestibular não acontece, ou então, onde uma agência de comunicações troca as vozes no pé do ouvido por frases cortadas na vídeo-chamada, a quilômetros de qualquer sinal de calor humano.


Antes do caos instaurado, é difícil pensar em algo que tenha mobilizado a sociedade de dados de tal forma. Nem a paixão do país do futebol durante a Copa fez a Cidade que Nunca Dorme tirar um break; mas o vírus fez. Tudo parou. Ganhamos uma temporada em casa sem prazo de expiração. Aqui, ilhados em meio ao mar de estatísticas alarmantes, nos percebemos dependentes das relações que tecemos — mais do que nos momentos bons que partilhamos.


Ficou clara a interdependência que cultivamos, a co-autoria que assina tudo que costuramos em sociedade. Como era de se esperar, o ser humano não dá o braço a torcer, principalmente quando desafiado por algo que não compreende. Estamos contornando o distanciamento por meio de versões virtuais dos laços que carregamos conosco. Não, não são nada parecidos aos abraços e beijinhos de “boa tarde” no começo do expediente. Mas são essas telas que ocupam os espaços até então dedicados às trocas que mediam nosso modo de vida tagarela.


O fator chamado pela pesquisadora Aisha S. Ahmad de “pornografia da produtividade” é um dos que vêm nos sufocando durante essa pandemia, visto que sentimos sempre que devíamos estar fazendo mais, nunca nos permitindo relaxar e analisar realmente a situação pela qual estamos passando.


A frase “quarentena não são férias”, utilizada para fazer com que a população se mantivesse em casa, agora é utilizada para justificar cobranças exageradas, como a necessidade de obter certificados nos milhares de cursos online disponíveis pois “a vida continua”, ou porque “Newton elaborou a teoria da gravidade durante a pandemia da peste bubônica”. Isso pode ter relação com o fato de estarmos tão acostumados com uma vida corrida e cheia de afazeres, que não compreendemos a necessidade de parar de vez em quando e mais importante: de parar de nos comparar com outras pessoas.


“Acho que a rapaziada também tem que aprender a lidar com a solidão, entendeu?”

A quarentena expôs nossa incapacidade de “desligar”, o que é, inclusive, discutido pelos apresentadores do Papo de Segunda, programa transmitido na emissora GNT, mais especificamente pelo rapper Emicida, que diz “acho que a rapaziada também tem que aprender a lidar com a solidão, entendeu? Com o ócio; eu odeio essa ideia de ócio criativo, porque as pessoas acham que você não pode mais ficar parado, ‘cê sempre precisa ‘tá ali, planejando’ (…)”. A tentativa de manter uma rotina estritamente regrada, pautada em planos exatos, é a receita perfeita para uma bomba caseira de ansiedade e frustrações.


As incertezas provocadas pela solidão trazida pela pandemia de COVID-19 são fatores responsáveis pelo agravamento de transtornos psicológicos, principalmente, em pessoas que já lidavam com esses, em especial, entre aquelas com TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo) e Transtorno de Ansiedade.


De acordo com David Kessler, especialista na filosofia do luto, isso se deve ao fato de estarmos lidando com uma espécie de luto antecipado, visto que, por mais que saibamos que voltaremos diferentes, não conseguimos nos acostumar à perda da normalidade, nem aos possíveis cenários a seguir.


A pessoa que lida constantemente com a ansiedade — que passa boa parte de seu tempo preocupada com o que vem em seguida — tem agora que lidar, também, com a enxurrada de informações encontradas na mídia, levando o transtorno a uma escala macro. Lily Bailey, autora do livro Because We Are Bad (“Porque Somos Maus”, obra sobre como viver com o TOC) conta em entrevista à BBC que, tendo o medo da contaminação como aspecto de seu transtorno, percebe que a repetição de certos hábitos, por recomendação e necessidade, tem se tornado uma espécie de “gatilho”, visto que “a água e o sabão um dia foram uma espécie de vício”.


Com a potencial convulsão social sob nossas lentes, se tornou papel dos comunicadores moldar a forma como as informações alcançam seus públicos. A busca pela disseminação responsável dos dados nos tem feito pensar cada vez mais na maneira com que divulgamos os resultados de pesquisas, se atentando ao tom e à exposição, também, de resultados positivos das mesmas — por exemplo, trazendo matérias envolvendo o número de pessoas já curadas.


Os meios de comunicação em meio a cenários de pandemia como o atual são de suma importância para manter a população informada de tudo o que está acontecendo. É nosso papel enquanto comunicadores se esforçar para barrar a disseminação de fake news, notícias falsas espalhadas sem veracidade, surgidas com o avanço da tecnologia e alcance da informação. Para isso, por exemplo, surgiu a campanha “Fato ou Fake” criada pelo G1, site de notícias da Rede Globo, em parceria com outros jornais como CBN, Época, Valor, entre outros.


Porém, mesmo com todos esses veículos e esforços orbitando a comunicação a fim de garantir que a notícia chegue com teor verídico a toda população, ainda excluímos alguns tipos de públicos. Alguns desses são aqueles sem acesso à televisão ou internet em casa e, de maneira ainda mais grave, pessoas com deficiência auditiva.


No estado do Rio de Janeiro, voluntários de comunidades se unem para tentar levar informações para moradores dessas regiões. O estado já registrou casos dentro dessas comunidades, o que não podemos mudar de imediato. Mas ainda há tempo para rever a direção para onde apontamos nossos megafones virtuais, buscando garantir que os fatos e direcionamentos essenciais alcancem essas populações, algo que as próprias comunidades já tentam com os recursos que dispõem.


“Carros de som para todos os lados. Cartazes, faixas e campanhas de doações. Na Cidade de Deus, fazem arrecadações de objetos e itens de higiene pessoal.”, como destaca Eliana Silva, da Rede Maré em uma entrevista para o Jornal Nacional, telejornal da Rede Globo. Esse foi um meio que a comunidade achou de suprimir a falta de comunicação entre os moradores, explicitando a importância da ação da sociedade civil. Porém, na abundância de proatividade ainda falta subsídio, essa responsabilidade do poder público e das iniciativas privadas — sedentas por filantropia publicitária.


Mas tal problema, como já dito, não é exclusivo dos moradores de comunidades. Entre a população surda, a falta da língua de sinais e da audiodescrição na maioria dos meios de comunicação faz com que a população se veja perdida em meio à pandemia. Com o intuito de suprir um pouco dessa necessidade o Instituto Nacional de Educação dos Surdos divulgou o vídeo “Saiba em Libras: Coronavírus”. O vídeo tem 15 minutos e explica os sintomas e maneiras de prevenção e da propagação do vírus.


São ações como essa que cumprem o papel fundamental da comunicação, de gerar comunidade, ressonância de ideias e permitir o amplo debate inerente à democracia, dissolvendo barreiras em paralelo aos discursos.


A situação que vivenciamos é ímpar, uma soma excepcional de crises socioeconômicas, sanitárias, ambientais e culturais, condensadas em um organismo microscópico. Para encarar tais desafios, fomos obrigados a colocar muitos dos nossos dogmas em xeque; ressignificamos hábitos tradicionais em prol do bem coletivo, a ponto de. celebrar o almoço de Páscoa via Hangouts.


Antes de tudo, essa adaptabilidade é prova do caráter maleável e mutável da nossa realidade, tão fluida quanto à comunicação em si. Essas “segundas olhadas” a algumas questões e hábitos expõem a perspectiva onde revisitarmos problemas tidos, até então, como insolúveis; os becos sem saída de ontem — as fake news e a overdose de dados, por exemplo — se tornam objetos de revisão, traçando possibilidades na massa disforme de futuro que temos a sovar.


Dia desses Luiz Eduardo Soares falava empolgado numa live oportuna, reiterando que “o futuro não está dado”. De certo, o antropólogo tem um quê de razão; o amanhã depende muito do que aprenderemos (a duras penas) nesse respiro-quase-hiperventilado que estamos vivendo.


O tempo (atrelado aos dispositivos sociais competentes) vai tomar as rédeas da crise até algum ponto ameno, sem correntes de controle meticulosamente planejadas à nossa disposição.


A comunicação desponta dentre os principais vetores de mudança em situações críticas, tendo em vista seu poder calmante e esclarecedor, capaz de acolher seus interlocutores quando bem articulada. O call to actionultrapassa as peças publicitárias, instigando quem lê, assiste ou interage com nossas produções a refletir laços e comportamentos a fim de enxergar nossa realidade interligada.


A preocupação com o mundo exterior precisa espelhar o cuidado com o “eu” que nos acompanha na quarentena. Nossa companhia é uma das poucas certezas que garantimos, de modo que o zelo com nosso bem-estar (físico e mental) seja tão essencial quanto a rotina antisséptica banhada a álcool em gel.


Nos resta esperar e lidar com o novo, tendo os olhos voltados para si, como quem navega o catálogo atualizado da Netflix: abertos a novas ideias, mas certos da volta confortante às comédias água-com-açúcar de sempre. E, claro, ficar em casa.

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